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Sexta | 25 de Março de 2022
Conheça a mulher grafitada no edifício da PGE-Daer
Conheça a mulher grafitada no edifício da PGE-Daer

Beatriz Gonçalves Pereira, 60 anos, é mãe de santo, negra e moradora da Ilha da Pintada. Quem não a conhece por tais credenciais já pode ter visto seu rosto, a 65 metros de altura, em Porto Alegre: Bia é a mulher grafitada na lateral do prédio que abriga o Departamento Autônomo de Estradas e Rodagem (Daer) e a Procuradoria-Geral do Estado (PGE), na Avenida Borges de Medeiros, bairro Praia de Belas. A pintura, obra da suíça Mona Caron e do paulistano Mauro Neri, foi planejada e executada entre o fim de 2021 e o início de 2022. Acabou entregue como um presente aos 250 anos da cidade.

- É um orgulho para mulheres, para nós das ilhas e para todos das periferias - diz sorrindo, em uma nova visita ao local, na manhã de ontem.

Enquanto desenhavam o perfil de Bia, os artistas foram ao bairro Arquipélago, conheceram os espaços mantidos por ela e se encantaram com a simplicidade da orla menos pomposa. Num lugar tão carente de representação, apesar de receber demandas da vizinhança - e ser a voz dos moradores nos debates envolvendo pleitos da comunidade e em outras audiências públicas -, Bia não se define como uma liderança. Prefere ser chamada de voluntária popular.

A mulher, agora representada na obra de arte gigante, pede que a cidade não olhe apenas para a pintura: ela recupera a força da voz para cobrar que Porto Alegre enxergue as ilhas nos próximos 250 anos.

- A gente costuma dizer que Porto Alegre sempre fica de costa pra nós. Parabenizamos os 250 anos e pedimos que Porto Alegre agora fique de frente - reforça.

Bia vive em uma casa de madeira distante apenas alguns passos do Rio Jacuí. No mesmo terreno em que mora, a família ainda mantém o Reino de Yemanjá e Oxossi.

No espaço, são oferecidos acolhimentos físico e espiritual. A peça que abriga pretos velhos e caboclos também protege os instrumentos musicais da escola de samba Unidos do Pôr do Sol.

Ensinamentos

A família chegou à região ligada ao continente pela Ponte do Guaíba na metade da década de 1950. A mãe de Bia, Leoni, tem hoje 78 anos e coordena a ala das baianas na escola de samba. Tem um dom diferente de Bia na unidade territorial tradicional: é a benzedeira da casa.

A mãe de santo, por sua vez, não teve acesso ao Ensino Superior - como boa parte dos negros no Brasil, reitera. Contudo, além de cursos nas mais diversas áreas, teve professores da "história oral do povo negro", como definem os ensinamentos repassados que a formaram como educadora popular.

As experiências são compartilhadas em palestras em universidades, nos debates para os quais é convidada, em oficinas ministradas aos jovens da rede integrada de proteção à criança e adolescente das ilhas ou ainda com as acolhidas pelo Instituto Camélia, organização sem fins lucrativos pela qual ela e outras mulheres empreendem.

- Temos quitandas com produtos orgânicos, da agricultura familiar. Tudo de uma rede de mulheres negras. Mostramos que a periferia pode comer bem, de forma saudável e com preço popular - encerra.

tiago.boff@rdgaucha.com.br

TIAGO BOFF